
Está disposto na página web “Comboni org” o documento escrito por alguns missionários combonianos sobre a missao: “Viver e trabalhar às margens com os mais pobres”. O referido documento, dirigido aos capitulares de 2009, tem a adesão de quase duzentos missionários espalhados pelo mundo afora. Acredita-se que muitos tenham lido e concordado com aquilo que foi publicado. Parabéns, pela iniciativa, porque vem contemplar o pedido da criação de um networks entre os membros da Familia Comboniana e, ao mesmo tempo, observar que o tema da inserçao, é uma estratégia missionária, que toca ao profundo de quem a experimenta.
Como missionário, já caminhei muito com o povo, inserido na cultura e costumes de cada região, vivenciando e partilhando dos sofrimentos e alegrias, como fruto da evangelização. O povo demonstra a presença positiva com o coração aberto para acolher os ensinamentos dos missionários e repassar aos mesmos a sua forma de viver...por isso, sugiro o termo, “ presença solidária”como peça fundante na missão de cada pessoa no servir com humildade , simplicidade e, sobretudo, viver na dimensão da partilha, do estar próximo.
Presença solidária ou solidariedade – é uma maneira de estar próximo do povo e ser presença significativa, assumindo um estilo de vida próprio no desempenho da missão, que tem como prioridade ‘0 POBRE’. Para que a presença seja solidária, precisa ser traduzida em gestos, atitudes, compromissos e escolhas corajosas a favor dos pobres, que formam a maior parte da humanidade, sentindo-se co-responsáveis. Desta forma, o missionário cristaliza um novo jeito de ser e encarar a realidade, diante das pessoas que a constituem, por isso a Missão é dinâmica e deve ser vivida com intensidade, através da convivência harmoniosa entre os membros das comunidades, para a aquisição de novos conhecimentos, que envolve a educação e experiência religiosa.
Cabe portanto ao missionário, criar e adequar o seu próprio jeito de perceber a realidade, sem fingimentos, mas com tudo aquilo que ele acredita. Neste sentido podemos afirmar que ser solidário revela o mundo inteiro do missionario, desvela o homem amante a Deus, manifesta a seriedade com que enfrenta a vida cotidiana, mas em particular sua força interior que o implusiona a colocar-se diante da realidade indipendentemente dos lugares onde trabalhará. Presença no respeito ao ambiente, em, numa atitude coerente consigo mesmo e com os outros,
Nestes meus vinte e sete anos de vida comboniana, acredito ter adquirido larga experiência como “missionário inserido”, vivendo com os pobres, fonte de conversão.
Ainda não conheço o continente africano, mas trago histórias do chão que palmilhei no Nordeste do Brasil, numa região particular chamada “Maranhão” dominada por uma família de políticos, há mais de quarenta anos. Mesmo assim, o povo é alegre e acolhedor...precisamente no sul do Maranhão, aprendi, que é preciso ir ao encontro do outro e evangelizar de forma itinerante como foi o apóstolo Paulo.
Sobre o documento supra citado, tecerei alguns comentários, como também oferecerei sugestões, diante da minha experiência vivenciada na missão. ,.
1. Comentando o documento
Deixando de lado o ícone escolhido, realmente muito pobre, uma vez que o Templo não edificado por Davi, foi construído mais tarde pelo seu sucessor. O mesmo Jesus lutou pela distruiçao dele, porém foram construídos outros depois da sua morte e , se não tomar cuidado, também a “inserçao”, hoje, corre o perigo de ser outro Templo que pede sacrificios humanos e energias desgastadas.
O documento apresenta-se pobre a respeito da história da missão comboniana. Alguém poderia fazer objeção que não era a finalidade do mesmo, então passa por cima das presenças significativas na linha da solidariedade e da justiça. Tudo parece que começou agora. E depois não é tão clara e correta quanto à divisão que ocorre entre inserção física e global e aquela que de qualquer maneira è chamada de um jeito “tradicional” de fazer missão. É preciso ter consciência de que a forma de agir è contraditória e que um missionario tradicional possa ter evidenciado prática de inserção ou um missionário inserido não tenha escapado da tentaçao de assumir presenças tradicionais.
Certo dia Jesus perguntou aos seus discípulos: quem dizem que eu sou? É interessante submeter-se ao parecer do povo e ver quem são os missionários que as pessoas mais lembram e o porquê da lembrança deles.
Outra omissão do texto, não deixa perpassar o que alimenta e abastece os que aceitam passar por este grande desafio.
Faz uma apologia dos pobres, como se eles não tivessem defeitos. Os ricos têm os mesmos defeitos e podem ser até piores. Os pobres de hoje são diferentes dos pobres de trinta ou quarenta anos atrás. Eram mais submissos, humildes, manifestavam certa fè em Deus, mantinham mais laços familiares, eram mais afetivos. Quem conhece as grandes cidades sabe bem que as periferias tornaram-se violentas, inseguras. Alcool, drogas, prostituiçao, Aids, armas são um perfeito coquetel para quem vive desempregado ou não consegue profissionalizar-se e busca sobreviver. Mantém uma baixa estima, em casa falta a presença paterna, por isso a mulher è obrigada a desempenhar os dois papéis Carregam dose de agressividade acentuada. São inconstantes nas tarefas. Muitos deles revelam disinteresse e certo sarcasmo para o discurso religioso, preferem ignorá-lo, assumem a profissão perigo, uma vez que não têm mais nada a perder com a vida, caso venham a falecer no conflito policial ou entre gangues rivais. Tudo isso tem produzido uma cultura completamente diferente de sobrevivência, que distancia o evangelizador do mundo deles. Apesar do nítido desejo de chegar ao mundo deles.
Outra afirmação do documento, é aquela que o missionário deve sentar com o povo. Pergunto: quantos missionários têm tempo “a perder” para isso? Quantos deles conhecem as peripécias da vida dos vizinhos de casa na luta cotidiana da sobrevivência?
Por que não averiguar e avaliar as experiências já feitas, antes de passar a outro capítulo da inserção? E verdade, existiram no passado experiências de inserção, algumas com mais sucesso, outras com menos: Ecuador, Kenia, Uganda, Brasil, porém geraram desconfiança e sem mesmo conhecê-las por dentro, não se conseguiu fazer uma séria analise crítica, por respeito a quem acreditou, desafiou o grupo e gastou tempo e energia,às vezes com o apoio de autoridade. Aborta-se certos projetos e idéias, porque quem está envolvido, abandona o grupo ou desiste por causa da pressão dos demais. Mesmo assim ninguém è autorizado a dizer que o que tem sido experimentado não tenha significância para a missao.
Nas últimas mudanças tenho sido objeto de podas radicais. Apressa-se a transferência e cortam-se os galhos principais como, pessoas, experiências, conteúdos, deixando-se somente o tronco, simplesmente as estruturas físicas. A poda requer certo tempo, para florescer e frutificar. Que tal se ouvissem o missionário, antes da mudança para outra região?
Por exemplo, pergunto: o que dizer aos jovens do grupo GIM da Italia, que alguns anos atrás escreveram uma carta aberta, que apareceu no Noticiário da província, a um missionário, que tinha retornado há poucos meses da missão, e continuava a falar da missão que deixara, das demoradas celebrações, do compromisso dos leigos, dos pobres e ainda era titubeante em acolher a nova realidade italiana, porque era também amada por Deus?
Ou o que responder ao postulante que replica ao seu formador que quem deveria inserir-se na realidade dos pobres era ele próprio, já que um bom número deles conhecia fome, doença, e sabia de onde chegavam as armas que mataram muitos dos parentes deles?
E do missionario que como um encarcerado marca com um X os dias que faltam para deixar a Europa e retornar à missao?
Permaneço perplexo diante de tal documento pois continua sendo a voz dos missionários europeus. A voz das vocaçoes da nova geografia comboniana permanece disfarçada, dissimulada. Eles bisbilhotam, conversam, dão gargalhadas, fazem comentários, mas ficam calados, não se expõem publicamente, embora alguns tenham assinado o documento. Falta a voz da Igreja local, mesmo que ela possa discordar, mas caberá a ela dar continuidade aos compromissos se tais têm sido significativos.
2. Presença solidaria: um pouco de historia pessoal
Tive a graça de realizar meus estudos de Teologia no escolasticado de Sao Paulo, Brasil. Era o começo dos anos oitenta. Entre os noviços daqueles anos o escolasticado criava certa simpatia e exercia atração. A estrutura simples, eram tres casas adquiridas e que anteriormente pertenciam a três famílias. Móveis usados, transporte coletivo e telefone público. Naquela época estávamos no olho do furacão a nível de congregação. Se dependesse dos secretários gerais da formação daqueles tempos iriam mandaram fechar o escolasticado. Os provinciais pediam para não destinar os escolásticos ou eram enviados quando não havia mais lugares nos outros escolasticados. Foi preciso uma carta do padre geral para assegurar aos provinciais que os escolásticos eram destinados do geral e seu conselho. Por alguns anos ficamos entre brasileiros e italianos.
Pessoalmente, considerei a experiência única, que a repetiria. O limite? Poderia ter estudado um pouco mais, fez-me falta depois, mas dependia de mim. Ainda hoje, depois que transcorri alguns anos na Italia e mais de 17 anos de Brasil Nordeste, mesmo como formador, aprendi muitissimo, coisas que me serviram e que constituem ainda hoje uma referência na vida humana, espiritual e missionária. Tínhamos o essencial para viver uma missão solidária dentro de um ambiente popular. Preparávamos o almoço na noite anterior e quem voltava primeiro esquentava a comida. Lembro-me do interesse do formador em ajudar ao grupo a viver dentro de um orçamento mensal econômico, que fizesse jus aos da maioria das famílias que viviam ao nosso redor, que fadiga! Trabalhávamos durante as férias de verão ou alguém realizava pequenos trabalhos durante o ano para colaborar com os estudos.
Foram os anos em que a Igreja do Brasil ajudou as casas de formação a saírem do centro e dos bairros nobres para morarem nas periferias. Apoiados pelos bispos, tais escolhas ajudaram a vida religiosa a redescobrir o mundo dos pobres e a Igreja a ser profética e próxima dos pobres.
Realizada a ordenaçao minha primeira destinaçao foi a Bari, onde fui encarregado da formação dos jovens, ali, assistíamos impávidos a chegada de grupos inteiros da Albania, Paquistão, da região Kurda, que a comunidade prontamente acolhia. A casa comboniana era uma estrutura inserida na vida social e eclesial da cidade. Nos anos anteriores a comunidade acolhera uma familia despejada de 12 pessoas, mas muitos outros pobres passaram pelos ambientes combonianos, que trago na memória a lembrança de um doido que nos colocou numa situaçao de perigo.
Na continuidade, fui destinado ao Brasil Nordeste - Balsas, Fortaleza, Balsas novamente. No começo entusiasta daquilo que vivi em São Paulo, renunciei a possuir um carro. Usava uma bicicleta. Morávamos num bairro de periferia. Discordei com a comunidade porque queria construir um muro alto, de tijolos, fazendo divisão com os vizinhos para manter nossa privacidade. Conseguimos fazê-lo mais baixo uma cerca de talos de buriti, uma estrutura mais simples, assim como eram a maioria das outras cercas da redondeza. Logo que fui transferido novamente, foi feita o muro de tijolos e a bicicleta serviu para uma rifa dos jovens. Aumentaram o número de quartos, foi ampliada a garagem e adquiriram mais um carro. Lembro-me de um episódio curioso, feliz com minha bicicleta, empolgado com o testemunho de solidariedade, soube que duas animadoras idosas foram ao encontro do bispo e pediram-lhe um carro, porque nao era justo que todos os padres da diocese dispusessem de um e eu tinha que sair de bicicleta. Quando lhes perguntei o porquê de tal atitude, elas responderam sem malicia, assim poderemos pedir carona quando for ao centro.
Em seguida, fui destinado a trabalhar na formação dos postulantes em Fortaleza – Ceará, experiência formativa e pastoral na linha de uma formação missionária solidária. Depois de novo voltei a Balsas por mais sete anos, sempre na intuição de levar adiante uma missão solidária, na mesma casa de antes e que durante os anos suportou muitas reformas de acordo com os critérios e a visão dos missionários que lá se sucederam.
O retorno a Balsas por tudo o que eu vivi serà algo indelével, marcante e a confirmação do que se pode chamar de presença solidária nos ambientes pobres. Momentos bonitos, carregados de fortes emoções e humanidade, feita de conflitos, abastecido pela fè do povo e consequentemente abastecedor de tantas lideranças, sem mãos atadas, diante daqueles que maltratavam os pobres e escravo do tempo deles. Momentos de serenidade e de tensões. A presença na delegacia da cidade, para defender os presos, o envolvimento da comunidade comboniana com o movimento popular que garantisse uma digna moradia para todos, a vida das comunidades eclesiais, rede de comunidade articulada dos leigos, escolhidos pela base. Momentos do apoio recíproco entre as lideranças, mesmo quando expostos e criticados pelas denúncias feitas aos políticos, pelo uso indevido das verbas municipais e a violência policial.
Nestes anos, não mudei de idéia, mudei minha aproximação com os que não acreditam ou decidiram ser presentes de maneira diferente. Quem me ajudou a crescer numa atitude de liberdade foram os pobres, eles sabem esperar e respeitar, sem fazer violência.
Assumir a presença solidária é uma questão de fè, de dom e de liderança. Os pobres precisam de liderança e de alguém que exerça a liderança na linha do serviço e da promoção deles. Nesta área o déficit missionário é assustador.
Concordo que a escolha do lugar para o futuro da nossa açao evangelizadora é importante. Jesus escolheu a Galiléia como lugar da sua ação evangelizadora. A escolha da Galileia era já a Boa Notícia, o Evangelho. Ele não precisava pregar muito para realizar suas obras. Sua presença já era motivo de alegria e esperança acompanhada das obras e palavras que pronunciava. A evangelizaçao não precisa de muitos sermões, a escolha do lugar justo é para qualquer agente de pastoral presença solidária.
Jesus, com seus gestos e palavras, alimenta a esperança, sobretudo dos vencidos, dos excluidos na história e abre a porta aos que eram prisioneros da pobreza, escravos da humilhaçao, rejeitados pela exclusão.
Hoje, estou convencido de que a presença no meio destes ambientes é cansativa, enfadonha, massacrante, torna-se chata, acaba-se sabendo de teatro sem uma confrontação cotidiana com eles, uma motivaçao de fè, permanecendo em silêncio e renovando a fidelidade a esta opção ao longo da vida. Com estes pobres, tenho partilhado a minha vida e aprendi a amá-los e respeitá-los, porque como afirmou Jesus, em Lucas 19,10: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava ja perdido”. Com estes“ casos perdidos,” moral, religioso, econômico,social e cultural, continuarei a dar a minha vida, em qualquer lugar que me encontrar. Também na minha nova missão em território italiano, continuarei a estar presente ao lado dos pobres, pois se tornou este o meu jeito de ser missionário.
Por fim o que me permite ficar de pé é minha intimidade com Deus, na oração diária, que me dá o vigor da espiritualidade. Sem ela, eu não teria superado os desafios, tudo o que a presença solidária exige. A Espiritualidade è ligada a uma grande paixão pelo Nazareno e seus irmãos. Ele permite ao missionário solidário, conviver com os pobres, que desde o amanhcer chegam à porta de sua casa e o aguardam para falar ou simplesmente vê-lo. Para eles tudo isso os enche de alegria.
Cuidado, “missionário em trânsito”, aos que usam o ambiente, os pobres para mostrar uma coisa que eles não vivem. Quem, naqueles anos, passou pelo Escolasticado de Sao Paulo tinha todos os elementos para viver uma missão diferente, mais perto dos pobres. Nem todos quiseram. Logo que terminaram não evitaram, como afirma o documento -a vida burguesa - mas a buscaram e a escolheram também como estilo de presença missionária.´O pior, criticando dos pobres, quando merecem, antes de tudo ajuda, respeito pela própria dignidade.
3. Presença solidaria do povo para com as comunidades inseridas
O povo é solidário para com seus missionários, sobretudo os que aceitam ficar com eles. Morar num ambiente de periferia ou popular é aceitar a vida feita de inseguranças, medos, dificuldades, sair de noite ou pior deixar a casa sem ninguém, por medo de ladrões. Suportar o barulho das festas noturnas, como também deixar de murmurar se faltou água por dez dias, ou por tres vezes num dia só teve queda de energia elétrica. A solidariedade nunca é num só sentido, è troca, presença, afeto, relação.
Numa paróquia da diocese de Balsas, a comunidade de irmãs trabalha no acolhimento, na prevenção e na educação de crianças e adolescentes. A casa das religiosas é separada do centro educativo. Quando as irmãs hospedam pessoas que vêm de fora, as pessoas que trabalham com elas, espontaneamente organizam a faxina da residência, sem que as mesmas as peçam. A cidade é pequena. As irmãs dispõem de um sò computador com Internet. A conexão é coisa rara e complicada. Sempre que é possível as irmãs permitem aos jovens da comunidade usar o aparelho conectado. E depois?... Se precisam de alguns serviços de casa como lavar roupa ou preparar a comida, escolhem pessoas que manifestam dificuldades em realizar os trabalhos, mesmo retribuindo pelo serviço prestado, em compensação fortalecem a confiança e a dignidade das pessoas, que saem satisfeita também, por ter ganhado algo como fruto do seu trabalho.
Irma Diane, religiosa canadense chegou ao Nordest do Brasil nos meados dos anos sessenta. Foi destinada a dar aulas de francês e de música no colégio de sua congregação. Tinha a missão de seduzir aos alunos, apaixonarem-se pelo francês e a música, coisa impossível entre os estudantes. Nos anos setenta as irmãs venderam o colégio e foram morar num bairro popular. Para se auto sustentar, Diane lavava a roupa das mães dos seus ex-alunos, trabalhava como doméstica, empenha-se na formação das Cebs, levava adiante seu empenho político - ajudar a criar o sindicato, depois o Partido dos Trabalhadores atualmente, o partido do Presidente Lula do Brasil. Acompanhou o Movimento dos Sem Terra, que reivindicam a reforma agrária do País, marcou presença no meio da pastoral juvenil, oferecendo vários cursos de formação. Quando a conheci, na metade dos anos noventa, durante a primeira etapa de um curso de direção espiritual, Diane deixara a favela e retirou-se no mosteiro da recém fundação, estrutura simples, conduzida por uma associação religiosa mista. Perto do mosteiro, existem as casas dos trabalhadores, cortadores de canas. Familias inteiras que desde o pequeno até o mais velho trabalham na produção da cana. Corpos disformes de adolescentes, com predisposição ao álcool, anafalbetos, e sem chance de mudança de vida. Trabalho exigente e perigoso, porque a cana è cortante e no meio dela se aninham cobras venenosas. Diane com a sua comunidade de monjes partilham com eles a vida, sem perder o horário monástico que começa de madrugada às 4.00 horas da manhã. Quando, por alguns tempos, o mosteiro várias vezes foi assaltado de noite por uma gangue do lugar, os cortadores de cana se organizaram para defender os próprios monges, atè que os bandidos desistiram das incursões noturnas. São presenças silenciosas que não fazem muito barulho e crescem como árvores ao longo dos rios da solidariedade. Presenças acolhidas e entendidas pelos pobres, que nao se sentem objetos, mas pessoas respeitadas e compreendidas. Presenças sem fronteiras pois todos os espaços são de acesso a todos e não existe placa com os dizeres - proibida a entrada aos estranhos.
4. Presença solidaria na tradiçao comboniana
Exemplo de solidariedade comboniana conheço muitos. Trago um, por ser uma presença missionária tradicional e pela estima e amizade profunda que guardo para com o confrade, falecido há pouco tempo, padre Emilio Ragonio.
Padre Emilio nos últimos anos trabalhou numa paróquia da diocese de Balsas e por tres vezes voltou à mesma comunidade. Os que alternaram as suas saídas não conseguiram encaixar-se e abandonaram logo o campo de trabalho. Realmente è uma realidade desafiadora, pobre, pouco estimulante. Os melhores e mais ativos moradores por falta de oportunidade deixaram o município. Ficaram os que manifestam pouca inicitiva, dependem dos políticos e não deixaram o lugar porque não têm nenhum incentivo de sair fora. Dificil è encontrar alguém que goze de certa autonomia. O missionário que voltou tres vezes encaixou-se naquela visão do documento “uma maneira tradicional de fazer a missão”.
Perguntado ao povo porque todas às vezes que o padre retornava, eles faziam uma grande festa? Os jovens responderam: Padre Emilio gosta de nòs, ele mora conosco. Isto nos dá valor! Os outros não gostam da gente, pois não querem ficar conosco. O padre encontrou a linguagem certa para comunicar-se com seu povo. Não era feita de palavras e também de idéias interessantes, alias suas celebraçoes eram monótonas, mas sua vida, em gestos e presença silenciosa, falava mais alto.
Pergunta-se aos missionários que escreveram obras de antroplogia, etnologia, recolheram proverbios, publicaram dizionarios ou provindeciaram a tradução de textos bíblicos ou litúrgicos, os que permanceram nos campos dos refugiados, que o documento reconhece pela dedicação eram missionários em trânsito ou missionários de inserção? Aqueles que ficaram ao lado das populações durante os anos de guerra, permaneceram simplesmente para realizar um clipt televisivo?
Acredito que ninguém possa conhecer e escrever a respeito de uma realidade, se não for totalmente inserido nela e não se fizer carne no meio deles. E ninguém é capaz de ficar anos a fio num determinado lugar, se não for seduzido pelas pessoas.
Se não exclamará como aquela missionária que trabalhou por trinta anos na saúde e na véspera de voltar para sua pátria, lamentava entristecida, que se um dia voltasse não teria uma família onde pudesse tomar um cafezinho.
O documento refere-se a dois tipos de inserção: a global e a física. Expressões que fazem sorrir. Inserçao global, parece ser feita dos missionários que não se preocupam de serem consumistas, gastam sem discernimento, usam a chamada high technology. Ostentam produtos high tech: computador último modelo, telefones celulares, aparelhagem eletronicas etc.. Eles são especialistas em problemáticas sociais, de direitos humanos, de justiça e paz e exercitam o poderoso instrumento de advocacy. São os teóricos da inserção, que traçam estratégias de ação. Missionários que vivem de congresso em congresso, que viajam, que não evitam um estilo de vida burguesa, revelam que sua vida noturna està cheia de compromissos para tratar de problematicas inerentes à missao.
Há missionários que ostentam a todos, que vivem no bairro pobre e violento, de periferia, alimentando admiração nos ouvidores, que os etiquetam de corajosos. Eles jamais iriam morar em semelhantes áreas. Diante destas apreciações o ego do missionário fica inflado de orgulho. Porém ele não mora no bairro, usa aquele espaço como dormitório e, o bairro, virou uma oficina de projetos sociais. Dos pobres tem-se pouco que aprender alguém retruca.
Existem inserções VIP que regularmente acolhem visitas de leigos estrangeiros. Eles saem de seus países para prestar alguma ajuda, mesmo por alguns meses. O missionário, vivendo em situações permanente de emergência, fica feliz, aceita a todos, mas aos olhos do povo do lugar fortalece a imagem dele ser estrangeiro, pois continua a manejar muito dinheiro, a falar a língua do seu país de origem, a mostrar o lado humilhante da miséria.
A presença solidária liga-se, portanto, ao networking, aprende a realizar um verdadeiro trabalho de comunhão e parceria, sem o vírus de ser primeira dama. Sabe-se apoiar em gente competente para enteder os mecanismos de morte do mundo dos excluídos, destinados a crescerem assustadoramente, porque é a dinâmica do sistema econômico vigente.
Presença solidária sabe ser discreta, não faz barulho, despreza os holofotes pois facilmente aparece como o verdadeiro protagonista da missão. E’ a tentação de todos aqueles que frequentemente realizam algo pelos pobres e não com eles.
5. Presença solidaria e formaçao
E’ um tema delicado e não fácil de ser tratado. O documento fala da formação, “evitando um estilo de vida burguesa”. Não se trata de evitar, pois já é nosso estilo de vida, mas de escolher um estilo alternativo. Escolhe-se o que atrai, pois dá prazer, cativa e seduz. Se os jovens formandos não escolhem é porque a mensagem que se envia é contrária. A Província peruana durante a assembleia 2008 votou uma moção contra o escolasticado inserido . A respeito disso há muita confusão, porque nem sempre os processos são respeitados e avaliados, antes de começar algo de novo. Pelo contrário, vota-se sem ter ouvido e conhecido o que está em jogo.
Fala-se de uma formaçao inserida. Para alguns, trata-se de aprender a não ser mais párocos, mas algo, com empenho maior nas questões sociais, uma formação não somente teológica, mas interdisciplinar. Outros têm medo de que a formação inserida” queira dizer ausência de oração, pouco tempo dedicada à vida fraterna e ao estudo, empenho no global.
Todavia não é a solução mágica. Brincamos com vidas humanas e o perigo obriga aos estudantes que façam o que idealmente existe na cabeça de alguns. Para que o caminho formativo não venha ter um caráter confuso ele deve ser gradual e integrado. Assisti a verdadeiros experimentos formativos de candidatos que assumiram trabalhos pastorais na linha da inserção que ninguém da mesma Província ousava arriscar-se.
Provoca admiração a coragem daqueles missionários que aceitam passar pelo crivo da formação, portanto torna-se estranha a nomeação deles. Missionários que vivem por anos num determinado país e são convidados a trabalharem na formação em outro lugar, com jovem de outras proveniencias. Que presença realizarão? Quais os critérios de avaliação? Foram preparados a fim de realizar estas tarefas? às vezes, tem-se a impressão de que alguns setores vitais da congregação vivem permanentemente em estado de emergência.
Existem formadores que nunca viveram de uma presença solidária, são autênticos paternalistas e continuam distribuindo bens aos pobres, mas não conseguem ser irmãos dos pobres, não sabem estabelecer uma relação proporcional, mas aprendem a serem bons pais, competindo com papai Noel, no momento que esbanjam presentes aos pobres Uma relação correta e educativa, se não libertadora, sempre é recíproca..
Entre os valores que adquire quem passa por uma experiência na linha da solidariedade, adquire a capacidade de ser mais humano consigo e com os outros e logo mais a busca do que è essencial na vida. Sim, com os pobres você sempre deve aprimorar a escolha da vida do que è acidental.
A vida, a sobrevivência sempre em primeiro lugar.
E’ uma peculiaridade de cuidar e não perder: ser humanos. Dos formadores lembra-se não as catequeses, mas seu jeito humano de tratar as pessoas, de acolher a vivência pessoal de cada um e entendê-lo.
Em vista disso, a formação pouco prepara os candidatos a serem solidários com os pobres, pois quando se trata de examinar os pedidos de admissão, o que mais determina a seleção do candidato não é a capacidade de que seja solidário com os excluídos, de fazer “causa comun com os abandonados”, atitudes de tolerância, pessoas de diálogo, prontidão mental para enfrentar serenamente os novos areópagos missionários, mas há outros valores que fazem do candidato um ótimo religioso: a oração, a freqüência aos sacramentos, a fidelidade à Igreja, o respeito dos horários da vida comunitária. Portanto,: como exigir e avaliar valores que o grupo não vive?
Lembro-me de um postulante que não foi admitido ao noviciado e entre as razões, faltava a solidariedade entre os pobres; creio que na história da congregação avalia-se pouco o empenho dos candidatos em relação à solidariedade, tanto è verdade que alguns jovens confrades manifestam grande resistências a trabalharem em lugares desafiadores e pobres.
Agora, nada acontece quando faltam as motivações, a força de um grande amor pelos pobres, que serve para os formandos e formadores. Nao è inato, ou naturalmente desenvolvidos, ou talvez espontâneo, mas deve ser cultivado, alimentado, estimulado e adquirido. E’ dom de Deus e por isso exige uma conversão total, uma mudança de rumo mesmo que aconteçam repensamentos, frustrações, dificuldades e resistências.
Encerrando a reflexão, precisa-se estar atentos a não fazerem da formação inserida um mito, pois muitos dos odres são velhos e há contato com o novo vinho, corre-se o perigo de perder seja os odres que o vinho. Ser escolhidos para a formação não significa ter feito uma escolha de presença solidária entre os pobres, crer que os pobres sejam sujeitos, portanto possam inclusive partecipar do processo de discernimento do candidato. Consequetemente acredita-se que o desafio maior, seja pela formaçao como por um novo estilo de presença missionária, que não vem da falta de idéias, mas são as mediações pedagógicas educativas que manifestem este amor, no ser solidário, que se traduz em assumir novas práticas, um novo estilo adquirido de como ser missionários, portadores da Boa Nova. E’ um problema de comunicaçao, de linguagem, pois cada um sabe comunicar-se, a partir do que está no seu íntimo.
Precisa tomar muito cuidado a não se fazer uso impróprio dos pobres por razões formativas, mesmo que sejam nobres. Reproduz-se não uma relação de reciprocidade, mas egocêntrica e talvez manipuladas por interesses congregacionais.
Uma formaçao inserida deve por obrigaçao ser contextulizada dentro de um processo maior e não simplesmente interessada a formar indivíduos pela missão. Visa sobretudo a evangelização e a liberação dos pobres oprimidos. Deve confiar na participação da Igreja local e dos leigos. Faltando estas perspectivas mais globais, a formação continuará fechada em sí mesma, embora mantendo alguns novos matizes.
Retomando a idéia de inserção global, a diferença entre os que falam de inserção e que assumem um compromisso pelos pobres e entre aqueles, que são uma presença solidária, é que estes últimos sabem traduzir em gestos, dar forma, incorporar a compaixão nas pessoas concretas, estabelecendo relações de reciprocidade com os mais pobres e os excluídos E’ necessário esta participação corporal, integral, pois possuir mero conhecimento ou simpatia pelas estatísticas oficiais, as análises de conjuntura política e os estudos sociológicos sobre a miséria, torna mais estéril a inserção, ou desculpa a presença solidária.
6. Ser presença solidaria
O que comporta ser presença solidária? Implicam uma verdadeira conversão, para evitar ser missionário em trânsito.
Retomo algumas das indicaçoes que aparecem no documento, apliando a reflexão.
Em primeiro lugar, aprender a ver a realidade com os olhos dos pobres. Habitualmente olha-se a realidade dos pobres com os olhos dos ricos. Por isso dando uma olhada geral percebe-se logo:sujeira, confusão, atrasos, agressões, pobreza, doenças, timidez, desorganização. Raramente sabe-se fixar o olhar sobre o empenho dos pobres que acolhem, oferecerem algo, fazem festa, tornam-se próximos de quem sofre. Eles pedem que sejam percebidos, reconhecidos. O poder deles está no olhar. Veja em Atos 3,4 “Pedro e João olharam bem para o homem”.: Ver o pobre.
Segundo perguntar-se: como sobravive um pobre? Os pobres que trabalham vivem de uma obediência cotidiana. Levantam cedo todos os dias, vão ao trabalho, voltam de noite. Eles têm um grande interesse para não perder o emprego. O final de semana é para família, outra atividade ou serviço de casa. De que coisa vive um missionário inserido? De ofertas? De salário? De esmola? Nunca se trata do assunto de trabalho, nem manifesta preocupação se chega atrasado, ou pacificamente se perder uma semana de serviço por causa de uma assembleia provincial. Falta obediência, espiritualidade do trabalho, que é o primeiro instrumento do ser solidário com a humanidade. Não somente com os pobres, também com os burgueses. Por trabalho entende-se o serviço que cada um é chamado a praticar dentro do lugar que mora.
Terceira consideração: como um pobre administra o dinheiro?. Como se pode insistir em ser presença solidária, se o dinheiro nunca é problema? Aliás a solução para não evitar a vida burguesa. Os pobres que manejam pouco dinheiro fazem seus cálculos, e se um gasto não entra no orçamento aguarda-se, pois são acostumados a fazer os orçamentos e dificilmente consegue-se ficar dentro do programado.
Quarta consideração: esvaziar-se do poder. Na relação com os outros é preciso despir-se do poder, da autoridade que os outros atribuem ou delegam. Perder o poder como sempre fez Jesus, no caso da adúltera, ele renunciou a aplicação da lei de Moisés, para que a mulher provasse a misericórdia do pai, e ela mesma regenerasse-se e acolhesse-se como pessoa perdoada. Daí a necessidade de respeitar certas decisões que os pobres tomam, mesmo quando vão contra o parecer do missionário. A tarefa do agente de pastoral é favorecer o discernimento, mas não cabe condicionar ou impor uma decisão final. Na hora de decididr uma eleição o missionário indica e escolhe candidatos, usando motivações racionais justas. O povo usa outros critérios: a sobrevivência, o grau de amizade, de simpatia, de afeto e de interesse pessoal.
Quinta consideração: o empenho com os pobres um sinal genuíno de caridade e gratuidade. Em todos os lugares do mundo aumenta o número de pessoas vítimas deste sistema econômico. Quem trabalha com estas pessoas sabe muito bem que há grandes investimentos, que correspondem escassos resultados, poucas conquistas, porque se defronta diante de um mundo humano das relações comprometidas, frágeis. A presença no meio destes ambientes, desenvolve a consciência da importância da missão, da liberdade em relação aos resultados e de quanto é pequeno o empenho frente aos desafios encontrados. Sem a generosidade e gratuidade não haverá presença solidária ou solidariedade.
Fica-se desfavorecido, porque os pobres nos atribuem competência, conhecimento, autoridade, capacidade de fazer e organizar. Uma presença solidária sabe direcionar estes recursos, agindo juntos, com o ritmo do povo. Assim operando dá-se começo a um processo, que não dará logo seus frutos, mas gerará autonomia e liberdade nas pessoas, seguindo tempo mais demorado.
Deve existir uma mudança de mentalidade, de cultura para que a presença seja solidária. Para isso é preciso ter humildade, discreção, e uma profunda conversão.
Em fim: exercer a caridade como empenho politico, a fim de que seja garantida a todos, o acesso ao que é patrimônio de todos, que seja assegurada uma vida digna e a justa distribuição dos bens. O missionário peca por puritanismo, no sentido de que, aparentemente não quer sujar as maos com politica, mas sabe operar escolhas politicas que o favorece.
Acredita-se que sem uma verdadeira disciplina, que parta da uma força interior, alicerçada na busca permanente das pegadas do Mestre, serà dificil manter uma presença solidária significativa, que seja de conforto e de esperança para os excluídos, segundo os critérios da solidariedade.
Desejo que o Capitulo 2009 saiba olhar ao que somos, devolvendo rasgos de esperança aos que já são inseridos ou se preferem são uma bela presença sólida, dentro da congregação e solidária.
Antonio Guglielmi, mccj
p. Antonio Guglielmi, mccj
1 “L’ assamblea està de acuerdo em que nuestra provincia no apoye la experiencia de teologato inserito (SI 27/ NO 2/ Abstenidos 8) Bollettino provincial “Combonianos en Perù y Chile”, numero 176/febbraio 2008, inserto pagina VII, mozione 4